04 novembro 2015

A seleção

Não se passaram mais que cinco segundos entre eu contemplar a paisagem pela janela do ônibus até a vista do lado de fora se transformar em pilares de uma ponte. Os gritos das pessoas ao meu redor indicavam o que parecia impossível há poucos instantes: iríamos morrer.

Eram muitos metros de queda. Ganhei mais alguns segundos de vida em que decidi não gritar, apenas fechar os olhos e esperar o espatife do ônibus na estrada de baixo.

Quando reabri os olhos, esperei ver o céu imaginado enquanto viva, com nuvens brancas, raios de sol e Deus de barba branca, mas a realidade daquele momento era uma fila imensa, pessoas com formulários na mão, caras de impaciência e dúvida, guichês que lembravam repartições públicas na terra, exceto pela quantidade – era muitos, a perder de vista.

“Talvez este seja o inferno. Será que furar fila da balsa é pecado grave? E aquela vez que eu ri do meu vizinho que tropeçou na calçada? Aquela piada… não era pra eu gargalhar… Mas o IR eu paguei certinho, só se digitei um valor errado sem querer em 1997. Foi um ano difícil, 97. Ah, minha sogra era chata! Falei mal mesmo…”

- Maria Silva, CPF 123.456.789.99!

Ouvi meu nome chamado em um dos guichês de formato peculiar e, ao me aproximar, percebi que as divisórias e paredes se estendiam até um teto infinito, em tom cinza escuro, que pareciam nuvens em dia de chuva forte. Nada de branco e raio de sol.

Aguardei o atendimento mentalizando os meus pecados, um pouco perdida pois em terra já nem era mais tão religiosa, havia parado na primeira comunhão. No entanto, todos temos as nossas noções de certo e errado, assim preparei minha lista com os erros e uma justificativa plausível para todos, pelo menos na minha assustada opinião.

Não sei de onde, chegou minha atendente: uma senhora de cabelos prateados e sorriso reconfortante, com leves marcas do tempo no rosto, cada uma delas gritando sabedoria. Olhei de relance para o lado. Todas as atendentes eram a mesma senhora.

- Maria, boa tarde. Tenho só boas notícias. A primeira é que você morreu. Agora você não entende, mas é uma boa notícia. A outra notícia é que analisamos o seu currículo e você é plenamente capacitada para integrar o nosso time no maravilhoso CÉU !! Onde só os bons e puros de coração vivem a felicidade eterna!!! Bem-vinda!

“Estou no céu, mandei bem!”, pensei. Mas não me dei por satisfeita. 

- Senhora… Desculpe, não sei nem como chamá-la.

- Isso não importa, querida. Aqui não precisamos ter nome. Só se você quiser.

- Certo. Então… eu não era das melhores pessoas lá embaixo (embaixo? em cima? onde?). Quer dizer, eu tentava ser uma boa pessoa, mas falhava muito também. Nunca matei ninguém, não roubei, mas senti inveja, falei mal, fechei os olhos para algumas coisas… enfim, posso saber por que estou plenamente capacitada para ficar aqui?

- Ai, querida! Olhe para trás!

De repente, se materializaram centenas, milhares de guichês parecidos com os de tom cinza, mas estes eram meio amarelados, meio alaranjados, brilhantes e quase impossíveis de se olhar diretamente por mais que uns segundos. As filas faziam caracóis sem fim, em uma extensão que minha noção de espaço terreno não conseguia compreender.

- Ali é a fila do lado mau. O inferno, sabe? Vocês chamam assim lá embaixo – sim, estamos em cima.

Claro! Está explicado porque vim parar no lado bom. A concorrência! Tinha muita gente idiota no mundo, eu já havia reparado. Sobrou um lugarzinho no céu pra mim, que ainda fiz um esforço e tentei ser boa pessoa, de vez em quando, sabe?

- Hahahahahaha! Otários!!!! Sou melhor que vocês!!!!

Sumi. A senhora sumiu. Fui para a escuridão novamente, pisquei os olhos várias vezes até a visão voltar.

Ouvi uma voz ao longe gritar:

“Maria Silva reprovada no teste. PRÓXIMO!”

Apareci diante de um guichê alaranjado.

05 outubro 2015

Merecimento

"Fulano merece."
O que é merecimento? Seria uma recompensa por bom comportamento? 
O que é se comportar bem? 
O que uma pessoa pode receber da vida e categorizar como prêmio? 
Quais são os critérios? Tem jurados, banca, pontuação, bônus, voto de minerva? 
O prêmio de um pode ser o castigo do outro? 
Pra quem reclamam os que se sentem injustiçados? 
Os injustiçados são mal agradecidos e chorões? 
Os chorões de hoje são os merecedores de amanhã? 
Quem merece pode ser estúpido? Sonso? Incapaz? Malvado? 
Merecer tem a ver com bondade? Desde quando? 

Não parece. 

28 junho 2015

Polemiquinhas

Tudo começou com o anúncio de que o país dono do mundo (EUA) havia aprovado o casamento entre pessoas do mesmo sexo (nisso o Brasil estava adiantado, desculpa aê). Direitos civis garantidos para TODOS é sempre uma notícia excelente de se ouvir e deve ser comemorada.

O que veio depois não foi tão bom. Vem comigo:

- Pessoas colorindo suas fotos e perfis nas redes sociais para celebrar (até aí, tudo na paz).

- Pessoas que não trocaram a foto sendo taxadas de homofóbicas, cinco segundos depois.

- Pessoas que trocaram sendo taxadas de puxa-saco dos EUA, uns dez segundos depois.

- Pessoas que não trocaram dizendo que lutariam contra a fome, essa sim seria uma causa boa.

- Pessoas rebatendo que essas pessoas que lutariam contra a fome não ajudam nem os pobres do bairro.

- Pessoas ridicularizando a orientação sexual alheia.

- Pessoas ridicularizando a religião alheia.

- Pessoas ridicularizando a causa alheia.

- Fanáticos religiosos dizendo que todos vão para o inferno (menos eles).

Lamento dizer, mas do alto da minha sabedoria profunda e falta de paciência para aguentar polêmica inútil e intolerância, devo dizer que todos estão errados, em especial os fanáticos religiosos.

Nós não vamos para o inferno, não. Estamos vivendo o próprio.

Vou para o Twitter, onde a vida ainda vale a pena.

Um #LoveWins sem troca de avatar para todos.

Alegre

03 junho 2015

Filminhos

Três filmes vistos recentemente (no longo voo de retorno ao Brasil, pós-férias).
Inaugurando uma Tag nova, já que falar da minha própria vida não anda me despertando interesse - desligaram meu lado Narciso?



Livre
História interessante baseada nas memórias da escritora Cheryl Strayed, na sua jornada pela Pacific Crest Trail, uma trilha que vai da fronteira dos EUA com o México ao Canadá, pela costa do Pacífico. Barra pesada, mas a vida dela também era. Curti bastante. Tem alguns pontos tocando na velha história de como as mulheres são "privilegiadas" durante uma missão difícil (mimadas, homens querendo "proteger"). E claro, outros querendo abusar. É duro ser menina, viu.


Interestelar
Tem viagem ao espaço? Tem tecnologia? Tem dilemas espaço-tempo-dimensões? Tem ciência? Adoro. Só é meio longo, dormi meia hora no meio do filme que não fez diferença no entendimento (fica dica, galera da edição). Impressionada cada vez mais com o Matthew McConaughey, que agora só faz coisas bacanas (mas ok, eu gostei dele em "Como Perder um Homem em 10 Dias", desculpa mundo).


Garota Exemplar
As personagens do filme têm duas regulagens: babaca mode on ou psicopata mode on. Achei o final meio besta e também é longo, mas vale a pena ver. Gostei da atuação do Ben Affleck e da Rosamund Pike, mas não entendi porque ela foi "aclamada" como um personagem feminino diferenciado. Não é, já vimos muito disso por aí. Em tempos de filmes de super heróis feitos para meninos grandes, é carência no mercado cinematográfico mesmo.

10 março 2015

O tempo, esse lindo

Voltei do trabalho para casa hoje com uma sensação que anda aparecendo cada vez com mais frequência: fui atropelada pelo dia. Dos milésimos e centésimos de segundo até os anos e décadas, todas as escalas de tempo fazem questão de me dizer que estão passando depressa demais.

De certa forma, eu gosto desse sentimento. Noves fora a angústia da proximidade do fim (um exagero, mas sim, estamos sempre um tanto mais próximos do final da jornada) e a aflição por nem sempre fazer o melhor com o tempo disponível, a passagem rápida, dizem, indica que a vida está boa, agradável e sem tédio.

A aflição também tem seu lado positivo. Ficar com a sensação que poderia fazer mais e melhor se houvesse mais tempo significa que você ainda consegue pensar nas tarefas do seu dia em versões grandiosas, para além da cerca ditadora dos ponteiros.

(São boas estas fases em que você vê o lado bom de tudo).

(Este espaço, por exemplo, coitado, largado às traças, não é por falta de tempo. Assunto a gente tem, mas ultimamente o que menos a internet precisa é de textão. Prefiro só observar).

(O fato de estar na fase “lado bom” também atrapalha a escrita, afinal os reclamões são muito mais prolixos).

Tempo esgotado por aqui hoje.

08 setembro 2014

Rainhas

A causa é boa: está por aí nas redes sociais uma campanha para a mulherada postar fotos sem maquiagem. Parem a loucura pela beleza, beleza real, todas são lindas, enfim, aparentemente, uma nova forma de “empoderamento” das meninas.
Na prática? Mais gente evacuando regra na vida feminina*.
É inegável a evolução do mundo no que diz respeito a mulher – considero aqui o “nosso” mundo ocidental, permito-me não avaliar locais em que se trocam mulheres por camelos ou que moças valem menos que vacas, por falta de conhecimento para tal. Olhando o nosso quadrado, não tem o que discutir. Uma mulher não podia votar no começo do século passado, hoje as duas líderes das pesquisas para presidência são mulheres. Muito a fazer, mas muito já foi feito.
Mas falta tanto ainda, uma estrada longa, desanimadora, daquelas que você tem que ir andando a pé, com sol a pino, rezando para que um dia, quando tiver seus rebentos, que sejam todos meninos.
Ainda que existam leis que garantam igualdade entre os sexos e mudanças culturais e de pensamento surgindo – ideias nascidas do equilíbrio e do bom senso tendem a permanecer, assim desejamos -  a evacuação de regra continua firme e forte na rotina das mulheres. E quem são as ditadoras? Surpresa? Nós mesmas.
Conhecem a fascinante mágica do “mudei de lado”?
Sou solteira? Mulher que casa é infeliz. Sou casada? Mulher solteira é encalhada. Tive filhos? Mulher sem filhos é incompleta. Não tive filhos? Mulher que se tornou mãe é escrava dos filhos. Trabalho fora? Mulher que fica em casa é vagabunda. Trabalho em casa? Mulher que trabalha fora largou a família. Trabalho em casa e fora? Nunca vai fazer nenhum dos dois direito. Sou dondoca? Quem trabalha não casou bem.
Vamos apenas revezando nossa opinião conforme nossa própria situação atual, de forma que nunca se sabe qual é a opinião das pessoas de fato. Evoluímos de rainhas do lar e dos sutiãs queimados para rainhas da conveniência, em que a única experiência de felicidade válida é a nossa própria, com direito a muita rede social aceita como evidência em qualquer tribunal.
Uso maquiagem todo dia? Quem não usa é desleixada. Não uso maquiagem? Quem usa é insegura. Faço chapinha? Quem não faz não se cuida. Não faço chapinha? Quem faz não se aceita. Sou magra? É gorda quem quer, quem se largou. Sou gorda? Não passo fome para agradar os outros.
Eu posso seguir essa lista até 2100 e não será suficiente.
E os famosos “toda mulher tem que”, “toda mulher deve”, “toda mulher precisa”? Sinceramente, eu não sei se os homens passam por isso. Mas no planeta mulher, é insuportável. Não passa um dia sem que apareça alguma sábio dizendo o que nos faz mais mulheres que as outras. E dá-lhe regra.
Quando será esse dia, que vislumbro tão longe, em que vamos parar de COMPETIR, exibindo nossas opções de vida como troféus e vamos finalmente CELEBRAR a possibilidade maravilhosa que temos diante de nós: a escolha? Os erros e acertos. A chance de mudar de ideia. E todas as ideias convivendo, diferentes, juntas e igualmente felizes.
Enquanto perdemos esse tempo precioso de nossas vidas, continuam por aí, rindo. Não se engane, não estão rindo para nós. Estão rindo de nós.

* fiquei sem graça de escrever “cag*ndo”. Ô palavra feia…

10 agosto 2014

Quem diria

Enfim, aconteceu. O aluno superou o mestre, por assim dizer, já que na verdade neste caso não há lição a ser ensinada, mas é um boa forma de contar a história.
Era uma vez uma moça que adorava a internet, era referência no assunto.
E todo mundo achava que ela passava tempo demais dedicada ao mundo virtual.
No entanto, aos pouquinhos, a turma foi chegando, arrastou o sofá, tirou a mesinha de centro e foi abrindo espaço para se acomodar.
A moça continuou onde sempre esteve.
E olha só, hoje que se rasga, se mostra, abrindo as profundezas da intimidade na “rede mundial de computadores” (hahaha, bjs Globo)?
Quem dizia que a moça passava tempo demais dedicada ao mundo virtual.
Quem diria.
A moça não liga não. Ela acredita no mundo livre, de fazer o que quiser, desde que não provoque o mal, então está tudo ótimo.
Ela só reaprendeu uma boa lição (pois é, ao final, temos sim uma lição). “O silêncio é de ouro”. Valeu, internet!

Não temos wi-fi, conversem entre vocês.

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