06 outubro 2009

A galinha simpática

Era uma vez…

Uma simpática galinha que morava em uma das mais famosas granjas da região. O local era conhecido pela boa produção de ovos, sempre em grande quantidade, qualidade acima da média e preço justo.

O mercado da região parecia dominado pelos administradores desta granja e a receita mensal obtida era bem satisfatória. Mas os donos, como qualquer ser humano tediosamente normal, tinham ambições. Desejavam ser os maiores fornecedores de ovos do país.

Para tanto, acreditavam que o modelo tradicional e antiquado de sua produção não era adequado para alçar voos mais altos - ainda que de galinha. Desta forma, os donos procuraram no mercado algumas empresas especializadas em levar processos de produção à excelência máxima, por um preço que faria qualquer galinha voar como uma águia.

A nossa simpática galinha era uma das campeãs de produtividade da granja. Sempre ganhava elogios de seus colegas de trabalho e o ambiente era amigável e feliz. Ela acreditava que também era elogiada pelos humanos, ainda que não entendesse muito bem o seu cacarejar.

Portanto, de maneira alguma ela temeu quando começaram a acontecer algumas mudanças nos processos. Ela era uma ótima funcionária e todas as mudanças seriam para benefício da empresa e de seus colaboradores.

A principal alteração na rotina das galinhas era a seguinte : assim que botassem seus ovos, tinham que dar um belo cacarejo. Não um comum, um cacarejo forte, intenso, que ecoasse por toda a granja e até fora dela. Isso serviria de estímulo para todas as galinhas produtoras, como um grito de guerra. O número de cacarejos bem dados ao fim do dia determinaria a recompensa de cada uma.

Aí começaram os problemas da nossa galinha simpática. Era excelente botadora de ovos, mas seu cacarejo não era dos melhores. De forma que botava muito mais ovos durante o dia que conseguia anunciar por seu gogó. E quando conseguia, não era com a intensidade desejada.

Todos os dias, a galinha ficava em último lugar no ranking e recebia os menores rendimentos. Teve que começar a mudar seus hábitos de consumo para se adaptar a menos recursos. As outras galinhas, antes suas amigas, se afastaram dela, e algumas até confessaram que nunca foram muito com o bico daquela “galinha metida” que outrora dominara a produção da granja. Nossa amiguinha ficava cada vez mais triste, desiludida e desmotivada.

Logo, as galinhas passaram a se inscrever em cursos para aprimorar o cacarejo. Contrataram fonoaudiólogas, especializaram-se em canto lírico, faziam gargarejo com Cepacol*, enfim, investiram pesado em sua voz para sempre poder cacarejar mais vezes e mais alto que as outras.

O que se viu dali em diante é que a produção de ovos caiu vertiginosamente. A qualidade foi afetada por todos os processos não naturais usados pelas galinhas para melhorar o cocoricó. E foi até descoberto um esquema de corrupção em que galos emitiam cacarejo, simulando que botavam um ovo, para poder se apropriar de recompensas no final do dia. A única galinha que ainda garantia uns meros trocados à antes famosa granja era a nossa amiguinha simpática.

Vendo que nem assim era reconhecida, completamente desgastada, cansada e f…, a galinha simpática resolveu botar seus ovos por outras granjas. Ainda era uma ótima produtora, era certo que encontraria algum local que poderia valorizar suas qualidades.

Pois naquela granja, não importava mais se você botava ovo. O importante era cacarejar.

* Cepacol, aceito patrocínio, beijos.

4 comentários:

Queila disse...

Sensacional... Senti um deja-vu agora...

Milton X disse...

Incrível como tenho certeza que já um filme muito parecido!

André Seoane disse...

Ei ... Cabeça para de ler os pensamentos disto que vos tecla!

Wild Wild Nest disse...

Faltou aquela famosa frase: Isso é uma obra de ficção - qualquer semelhança com fatos ou pessoas reais é mera coincidência. Boas merecidas férias!

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